Como eventos extremos podem mudar ecossistemas marinhos: o que uma pesquisa do litoral do Paraná desvendou

por Azucena Ferreira | abr 13, 2026

Assim como ouvimos falar de eventos extremos na terra, eles também existem no mar. Pouco se fala sobre isso, mas os oceanos têm sofrido bastante com as mudanças climáticas — e pesquisas científicas demonstram isso, como você poderá ver ao final desta matéria.

Um dos fatores que afetam consideravelmente os organismos marinhos são as ondas de calor marinhas, que são períodos em que a temperatura do oceano fica consideravelmente mais alta do que o normal e permanece assim por pelo menos cinco dias consecutivos.

As consequências desse fenômeno podem incluir alterações na biodiversidade local, desde o branqueamento e a degradação de recifes até a diminuição de organismos bentônicos, como já foi observado no litoral do Paraná.

O que são organismos bentônicos?

Organismos bentônicos são seres vivos que dependem de um substrato para viver. Esse substrato pode ser consolidado (ou firme), como costões rochosos e recifes de coral, ou inconsolidado (ou mole), como areia e sedimentos de baixa granulação.

Foto: Equipe do Marés de Mudança

Quando um organismo — vegetal ou animal — depende desse tipo de superfície para se fixar, viver ou se alimentar, ele é chamado de bentônico. Esses organismos vivem associados ao fundo do mar ou de estuários, utilizando rochas, recifes, areia ou lama como base para sua sobrevivência.

Exemplos de organismos bentônicos

Mexilhões: moluscos que vivem presos em rochas ou estruturas submersas e filtram partículas da água para se alimentar.

Ostras: bivalves que ficam fixos em superfícies duras, como rochas ou trapiches, formando muitas vezes grandes agregações.

Cracas: pequenos crustáceos que se fixam em rochas, cascos de barcos ou boias e filtram alimento da água.

Foto: Equipe do Marés de Mudança

Poliquetas: vermes marinhos que vivem enterrados na areia ou em pequenos tubos no fundo do mar.

Anfípodes: pequenos crustáceos que vivem entre algas, rochas ou sedimentos e servem de alimento para vários peixes.

Ofiuros: parentes das estrelas-do-mar, com braços finos e longos, que vivem escondidos entre rochas ou no sedimento.

Briozoários: colônias de pequenos animais filtradores que parecem musgos ou pequenas plantas sobre rochas.

Hidrozoários: organismos coloniais aparentados com as águas-vivas que se fixam em rochas, algas ou outras superfícies.

Esponjas marinhas: animais filtradores que vivem presos em rochas ou recifes e ajudam a filtrar a água do ambiente.

E até a anêmona que servia de casa para o Nemo e seu pai, lembra? A anêmona também é um organismo bentônico! 

Foto: xpedicaovida.com.br 

Por que o aumento da temperatura do mar preocupa cientistas?

Prof. Rafael Metri durante trabalho de campo investigando organismos bentônicos em costões rochosos.

Muitas espécies marinhas são sensíveis à temperatura, e mudanças bruscas podem alterar o funcionamento dos ecossistemas, afetando fatores como disponibilidade de espécies, reprodução e alimentação.

Os organismos bentônicos são importantes porque ajudam na manutenção da cadeia alimentar e na produção primária. Em outras palavras, para que possamos continuar consumindo peixes, caranguejos e mariscos, é necessária a existência desses organismos, que servem de alimento para várias espécies marinhas.

Outro exemplo de organismos bentônicos são as algas e microalgas, responsáveis por produzir energia que depois é utilizada por outros animais que se alimentam delas. Assim, a cadeia da vida no ambiente marinho continua funcionando.

Pode parecer algo distante no começo, mas a verdade é que essas mudanças podem afetar até o que chega ao nosso prato.

O que os cientistas do litoral do Paraná investigaram?

Em Paranaguá, pesquisadores investigaram como as ondas de calor marinhas podem afetar organismos bentônicos. A pesquisa foi motivada pela preocupação de que eventos extremos de aquecimento do oceano estão se tornando mais frequentes devido às mudanças climáticas, podendo provocar mudanças importantes na biodiversidade e no funcionamento dos ecossistemas marinhos.

Assim, o objetivo central da pesquisa foi entender quanto as ondas de calor marinhas estão afetando o Complexo Estuarino de Paranaguá e avaliar seus efeitos nas populações bentônicas da região.

O que os pesquisadores fizeram na prática?

Os pesquisadores analisaram amostras coletadas em três áreas do complexo estuarino:

  • Baía de Paranaguá
  • Baía de Antonina
  • Baía do Pinheiro

Algumas das bóias amostradas durante o estudo e um registro do processo de raspagem.

Para compreender melhor o fenômeno, também foram analisados 41 anos de dados de temperatura da superfície do mar, entre 1982 e 2023.

Além disso, os cientistas avaliaram parâmetros como:

  • intensidade dos eventos
  • duração
  • frequência
  • severidade

Também foi analisado como as populações bentônicas responderam aos eventos extremos de aquecimento.

O que os cientistas descobriram?

Os resultados mostraram mudanças importantes no ambiente marinho da região. Entre 1982 e 2023, a temperatura média anual da superfície do mar aumentou 1,17 °C. Também foram identificados 104 eventos de ondas de calor marinhas, sendo 21 classificados como eventos fortes.

Os dados mostraram um aumento significativo em:

  • intensidade das ondas de calor
  • duração dos eventos
  • número total de eventos

O que esses resultados significam para o futuro dos ecossistemas marinhos?

Os cientistas concluíram que muitos organismos marinhos, especialmente em regiões tropicais e subtropicais, vivem próximos do seu limite térmico de tolerância. Isso os torna mais vulneráveis ao aquecimento extremo.

O estudo também indica que as ondas de calor marinhas estão se tornando mais frequentes e intensas no litoral sul do Brasil.

Esses eventos podem alterar as populações bentônicas estuarinas e provocar mudanças na estrutura dos ecossistemas marinhos.

Compreender esses impactos é essencial para a gestão ambiental e a conservação dos ecossistemas costeiros.

A importância do monitoramento

Por isso, é fundamental continuar o monitoramento dos oceanos e das comunidades marinhas, para entender melhor essas mudanças e ajudar a proteger os ecossistemas costeiros.

Artigo científico analisado: Impacts of marine heatwaves on benthic estuarine populations

Autores: Ariane Lima Bettim, Murilo Zanetti Marochi, Rafael Metri e Pablo Damian Borges Guilherme

Revista científica Climatic Change

Ano de publicação: 2025

DOI: https://doi.org/10.1007/s10584-025-04022-2