Pesquisadores investigaram como estruturas presentes no estuário de Paranaguá podem facilitar a dispersão de espécies exóticas no ambiente marinho.

por Azucena Ferreira | abr 22, 2026

Pesquisadores investigaram como estruturas presentes no estuário de Paranaguá podem facilitar a dispersão de espécies exóticas no ambiente marinho.

Como cientistas estudam esse problema no litoral do Paraná

Para entender como espécies invasoras conseguem se espalhar no ambiente marinho, cientistas investigam diferentes fatores que podem facilitar essa expansão. Entre eles estão estruturas artificiais presentes no mar, como píeres, marinas, plataformas e até boias de navegação.

Essas estruturas funcionam como superfícies onde diversos organismos conseguem se fixar e crescer. Com o tempo, podem se transformar em pequenos “habitats” no meio do mar, abrigando comunidades de organismos que antes não estavam presentes naquele local.

No litoral do Paraná, pesquisadores da Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR) realizaram um estudo para entender melhor esse processo no Complexo Estuarino de Paranaguá, uma das regiões portuárias mais importantes do Brasil.

O que os pesquisadores investigaram

O estudo analisou organismos que vivem em boias de navegação utilizadas para sinalizar o canal de acesso aos portos de Paranaguá e Antonina.

Complexo Estuarino do Paranaguá, Sul do Brasil. A localização das boias analisadas desde o canal de acesso até os portos do Paraná é indicada pela sigla/número oficial utilizado pela Marinha (números e/ou letras para designar cada boia) e cores diferentes para cada setor salino (Google, 2020).

Essas boias permanecem longos períodos no mar e acabam servindo como superfícies rígidas onde diversos organismos marinhos podem se fixar.

Segundo os pesquisadores, essas estruturas podem funcionar como verdadeiros “degraus” que facilitam a dispersão de espécies invasoras, permitindo que elas se estabeleçam e depois se espalhem para novas áreas do litoral.

Como a pesquisa foi realizada

Para realizar o estudo, cientistas analisaram 23 bóias de navegação localizadas ao longo do estuário de Paranaguá.

Durante operações de manutenção realizadas pela autoridade portuária, essas boias foram retiradas do mar, permitindo a coleta de organismos que estavam fixados em sua superfície e nas correntes que as mantêm ancoradas.

No total, os pesquisadores coletaram 73 amostras de organismos, que foram levadas ao laboratório para identificação e análise.

O que os cientistas encontraram

Ao analisar as amostras, os pesquisadores identificaram 88 tipos diferentes de organismos associados às boias.

Metade deles eram organismos sésseis, que vivem fixos nas superfícies, como mexilhões, cracas, briozoários e ascídias. A outra metade era composta por organismos móveis, como caranguejos, anfípodes e poliquetas.

Entre as espécies identificadas com maior precisão, mais da metade eram espécies introduzidas, ou seja, não são nativas da região.

Os cientistas também observaram que essas espécies aparecem com maior frequência nas áreas do estuário com maior salinidade, mais próximas do mar.

Por que estruturas artificiais podem facilitar invasões biológicas

Estruturas artificiais presentes no ambiente marinho — como boias, píeres e marinas — podem facilitar a instalação de espécies invasoras porque oferecem superfícies ideais para a fixação de organismos.

Além disso, essas estruturas muitas vezes permanecem anos no mesmo lugar sem manutenção, permitindo que comunidades de organismos se desenvolvam ao longo do tempo.

Quando essas estruturas se deslocam ou quando larvas se dispersam na água, novas áreas podem ser colonizadas.

Por isso, os pesquisadores destacam que essas estruturas podem atuar como corredores ou pontos intermediários que ajudam na expansão de espécies invasoras ao longo da costa.

O que os pesquisadores recomendam

Diante desses resultados, os autores do estudo destacam a importância de monitorar regularmente estruturas artificiais presentes em ambientes portuários.

Entre as medidas recomendadas estão:

  • manutenção mais frequente das boias de navegação
  • limpeza periódica dessas estruturas
  • uso de tintas anti-incrustantes para reduzir a incrustação de organismos
  • inclusão desse monitoramento em programas de licenciamento ambiental portuário.

Segundo os pesquisadores, essas ações podem ajudar a reduzir a dispersão de espécies invasoras e proteger os ecossistemas costeiros.

Fontes científicas

Artigo: Navigation buoys as stepping-stones for invasive species

Revista científica: Ocean and Coastal Research

Autores:
Rafael Metri; Cassiana Baptista-Metri; Yara Aparecida Garcia Tavares; Mariana Baptista Lacerda; Elliezer Lima Correia; Gésica da Costa Bernardo Soares; Pablo Damian Borges Guilherme.

Ano: 2024

 

Título: Ecossistemas recifais do Paraná e as ameaças à sua preservação

Revista: Oecologia Australis

Autores: Franciane Pellizzari; Maria Angélica Haddad; Rafael Metri; Jonathan Rene Arzão Molina; Eliel Alves; Rosana Moreira da Rocha.

Ano: 2025